Honesto/Desonesto. Calmo/Nervoso. Generoso/Egoísta. Intenso/Apático. Todas essas características são polaridades possíveis de uma mesma pessoa. Assim como dois lados de uma mesma moeda, cada pessoa pode ter acesso a diferentes partes de sua personalidade. Porém, na prática, nem sempre isso acontece.
O que costumamos a ver são polaridades atuantes e solidificadas. Pessoas honestas a tal ponto que qualquer mentira se torna uma tortura. Ou que são fechadas e raramente conseguem se abrir quanto ao que sentem. Pessoas que por serem generosas, não conseguem dizer “não”. Pessoas pacíficas que não sabem acessar sua agressividade interior.
É natural que haja predominância de alguma polaridade sobre a outra. Contudo, quando essa rigidez se torna tamanha a ponto de não se conseguir acessar sua outra polaridade, é preciso analisar o que está havendo.
Em Psicologia Analítica temos o conceito de sombra e persona. Em linhas gerais, persona é tudo aquilo que você exibe ao outro em seu convívio social. É toda característica com a qual você se permite entrar em contato nas suas relações com o outro. Já a sombra é o contrário. Ela é tudo aquilo que escondemos. São as características “obscuras”, jogadas pra debaixo do tapete, mas que de vez em quando aparecem.
Entenda uma coisa:
Ninguém é 100% bom. Tampouco 100% ruim. Assim como ninguém é 100% honesto, generoso, altruísta, solícito, prestativo. Porém, tendemos a negar essa verdade. Queremos mostrar sempre nosso melhor lado. Mas esquecemos de que o lado que não queremos mostrar também faz parte de nós mesmos. Valorizamos o que compõe nossa persona, mas negamos tudo que vem de nossa sombra.
Vou dar um exemplo.
Tive uma cliente que exibia certos sinais de insegurança e ansiedade frente a situações desafiadoras ou figuras de autoridade superior, como seu chefe. Nestes momentos, só conseguia entrar em contato com seu lado inseguro, passivo e frágil. Contudo, dentro dela existia uma mulher altiva, segura, imponente qual raramente acessava. A medida que começou a aprender que existia dentro de si um poder em sua altivez e imponência, pode acessá-lo, lidando melhor com seu chefe, ganhando inclusive seu respeito.
Outro cliente que passou pelo meu consultório sempre foi uma pessoa bondosa que estava sempre disponível a quem precisasse. Muitas das vezes abrindo mão de si mesmo, para auxiliar o outro. Contudo, isso lhe causava uma sobrecarga emocional e lhe privava muitas vezes de olhar para si mesmo, uma vez que sempre estava olhando para o outro. Como consequência tornou-se bom em se doar, em ver o lado bom das pessoas, mas com extrema dificuldade para ver seu lado bom, suas qualidades, seus pontos fortes. Doa-se demais e cobra-se demais. Numa constante busca de ser o melhor para todos.
Neste segundo caso, o trabalho foi em torno de despertar seu ego-ísmo (ego, de si mesmo e ísmo, de doutrina, caminho – em outras palavras, caminho de si mesmo). Tendemos a ver o egoísmo como algo completamente ruim. Contudo, é estritamente necessário que tenhamos doses de egoísmo. Sem ele, não conseguiremos dizer “não” àqueles que nos solicitam de forma abusiva. Sem uma dose de egoísmo, não conseguiremos sair de uma relação que não está nos fazendo bem. Se não formos um pouco egoístas, não pensaremos em nós e pensaremos sempre no outro.
A presença total de egoísmo é nociva.
A ausência total é igualmente prejudicial.
E esse é o ponto central deste texto. Te convidar a refletir que seu lado grosso, estressado, egoísta, passivo, carinhoso, brincalhão, sério, altivo, sensual, provocante, focado, divertido são extremamente importantes para um estar no mundo mais integrado. Desde que seja usado na medida certa.
Nada em excesso é benéfico.
É importante dosar.
Se você é uma pessoa séria, não tenha medo de acessar seu lado brincalhão.
Se é uma pessoa bondosa, experimente dizer não para quem abusa da sua boa vontade.
Se é uma pessoa irritadiça, experimente sorrir mais com os tropeços da vida.
Se é uma pessoa muito brincalhona, tente levar a vida um pouco mais a sério.
Se você é uma pessoa insegura, experimente agir com firmeza, sem temer a avaliação das pessoas, confiando apenas naquilo que você está fazendo.
Tendemos a valorizar nosso lado “iluminado” e esquecer do poder de nosso lado “obscuro”. Uma mulher que valoriza exclusivamente seu lado “angelical” pode esquecer completamente o poder de seu lado “bruxa”, o que pode leva-la a ser doce com um anjo, num momento que requer a agressividade, a altivez, a força de imposição de uma bruxa.
O grande “x” da questão é usar sua característica certa, no momento certo.
E como se faz isso?
Primeiramente sabendo quais são suas características. O autoconhecimento é fundamental neste processo. A pessoa que se conhece, sabe exatamente quais e quantos lados possui e isso se torna uma arma ao invés de um defeito. Uma pessoa que conhece tanto sua capacidade de ser bondosa quanto a de ser agressiva pode usar essa agressividade a seu favor, no momento certo. Agora se você nega seu lado agressivo, quando precisar sair de uma situação aprisionadora, por exemplo, não terá forças.
Se você é uma pessoa extremamente séria, terá dificuldade em relaxar em situações que exigem a leveza de uma criança. E não há nada mais horrendo do que a morte de sua criança interior, pois será ela que lhe dará a alegria, a flexibilidade, a criatividade, a curiosidade pelo novo, o gosto de descobrir coisas novas e a capacidade de se levantar após a queda e continuar correndo, tal como uma criança é capaz.
Não é preciso ter medo de acessar o lado que tenta esconder. É preciso apenas saber o momento certo de usá-lo.
Até a próxima.
Bruno Rodrigues
Psicólogo Clínico e Terapeuta de Casais
CRP 05/47828
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